Novidades…

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Ferraris, Mario, Où es-tu? Ontologie du téléphone portable, Essai (broché) 2006.

 

‘Estás onde?’: com o aparecimento do telefone portátil, esta pergunta tornou-se um reflexo, e a mobilidade uma evidência. Verdadeiro apêndice deste nosso ser, este instrumento transformou radicalmente a nossa vida diária, alterando a nossa maneira de ver, de compreender e aprender. Donde a noção de ontologia, que preside a esta análise ao mesmo tempo profunda e divertida do portátil e do seu significado.

Centenário de Emmanuel Lévinas (1905-2005)

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Emmanuel Lévinas nasceu, em 1905, na Lituânia e morreu em Dezembro de 1995.

Exilou-se primeiro na Rússia, e seguidamente em França, em Estrasburgo, onde, a partir de 1923, começa os estudos de Filosofia. Torna-se amigo de Maurice Blanchot. Parte de Estrasburgo, em 1928, para seguir o ensino de Husserl e Heidegger em Friburgo. Presencia a ascensão de Hitler e a eclosão da guerra; muitas provações e feridas indelévéis para este jovem filósofo que nunca se afastou das suas origens judaicas, nunca abandonando, por exemplo, a leitura do Talmude, nem o questionamento metafísico e ético que aí é exercido. O que faz toda a força e a originalidade do pensamento de Lévinas é o de se ter situado numa encruzilhada de domínios do espírito muito diferentes, tendo êxito a forjar uma filosofia resolutamente moderna que se quer, assim como ele próprio escrevia, “como a sabedoria do amor, ao serviço do amor”.

Novidade(s)…

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Kristeva, Julia, Au risque de la pensée , Essai (poche), 2006.

Semióloga, psicanalista, romancista, especialista dos estados-limites da língua, Julia Kristeva deslumbra-nos com o seu génio proteiforme. Consente em entregar e analisar aqui os meandros do seu percurso, da cultura comunista búlgara à aventura de Tal qual, da sua chegada a Paris nos anos 1960, e do seu encontro com Lacan à sua própria análise, do seu interesse apaixonado pelas novas doenças da alma às últimas perturbações – ao mesmo tempo éticas e políticas – que baralham as referências ancestrais das nossas sociedades. Testemunho atento do nosso tempo, a autora não cessa, num olhar perspicaz e alegre, de interrogar a figura do Estrangeiro, do Outro. Em nenhum caso nostálgico de um discurso religioso passadista, Kristeva propõe outra moral, ao mesmo tempo feliz mas sem ilusão, que convida cada um a empreender o seu próprio percurso e a descobrir a sua singularidade.

A «fenomenalidade» do pão

Falar do « pão » significa, desde logo, lembrar que enquanto signo, o pão atravessa a vida e o pensamento humanos pelas categorias que transporta no seu bojo, as de unidade ( transubstanciação ) e de temporalidade. Enquanto manifestação pura ou revelação, o pão, de cuja ideia pretendo aqui falar, difere inteiramente do objecto físico-químico. O fenómeno « pão », nas suas multiformas física, química, nutricional, político-ideológica, entre outras, não tem a capacidade de se experienciar a si próprio ( não tem em si mesmo a sua fenomenalidade), de respirar um odor, de amar ou de desejar, de “tocar” as coisas que o circundam, ou seja, não tem a capacidade de se mostrar e/ ou revelar a nós. Esta capacidade de se mostrar, e de assim se tornar objecto de um saber possível, deve-se a um poder de manifestação que lhe é estranho: o da experiência interior que cada indivíduo faz da sua vida, do facto mesmo de “viver”.
A Modernidade, pela mão de Galileu, atribuiu à ciência a nova tarefa de conhecer o universo real, constituído por objectos materiais extensos e dotados de figuras, o que implicou a redução quer das qualidades sensíveis do universo, quer da sensibilidade sem a qual essas qualidades sensíveis não existiriam. A nossa experiência da realidade não tem apenas um sentido pragmático ou técnico, pois também temos experiências a outros níveis, como por exemplo, do não mensurável, do não representável, do não objectivável. Paralelamente à corporeidade humana, a corporeidade do pão é, também, signo e força geradoras e criadoras de sentido, logo não pode ser o lugar de uma objectivação e, consequentemente, não é objecto de manipulação. A metáfora da ‘corporeidade do pão’ está naquilo em que excede a consciência objectiva e objectivada. Neste contexto, ela significa a vida como sendo, simultaneamente, facticidade e transcendência; na sua raiz sagrada, reenvia-nos originalmente para a verdade ( como desvelamento ), esperança e ressurreição, mas também para a dor, para o sofrimento, para a finitude e para a temporalidade: a dor é subsidiária da finitude original do homem, da experiência contrastiva, e em última instância remete para a (sua) história, (sua) temporalidade e (sua) memória. Na sua dimensão metafórica, o conceito de pão é expandido à dor e ao sofrimento pois é transferida de uma coisa ( aglomerado acidental, alimento ) para outra ( «corpo e sangue» de Cristo, fome, privação, escassez …). Ao contrário da indução e a dedução ( modelos verticais de pensamento ), a metáfora opera horizontalmente, pois “(re)descreve” a realidade. A metáfora do « pão » actua, portanto, remetendo-nos para esse originário de que procede, e é levada para uma nova dimensão da aplicação, subsidiária do facto de o homem se auto-representar na linguagem, enquanto espaço poético e ecuménico, da necessidade de efectuação de sentido sempre motivado e situado.(in Bread Matters (adaptado), 2003 )

Leitura(s)…

Claude Halmos, Pourquoi l’amour ne suffit pas. Plaidoyer pour l’éducation, Nil Eds, 2006.

Nota da Editora
« L’enfant n’est pas “naturellement ” apte à vivre avec ses semblables et il ne découvre pas tout seul le mode d’emploi de la vie humaine. Il se construit et a pour ce faire besoin des adultes; l’éducation est le support essentiel de sa construction. Aimer un enfant ne peut donc, comme on le croit trop souvent aujourd’hui, se limiter à éprouver pour lui de l’affection. Claude Halmos, à la lumière de son expérience de psychanalyste, démontre que la vision d’un amour parental réduit aux sentiments a des conséquences graves pour les enfants, pour leurs parents, mais aussi pour toute la société. Elle pose, dans le langage clair qu’on lui connaît, les bases d’une véritable réflexion sur l’amour parental. Et donne ainsi à tous les parents les moyens de comprendre ce qu’aimer un enfant veut dire.»


Frans de Waal, Le singe en nous , Fayard, 2006.

Nota da Editora
« Frans de Waal nous livre une étude passionnante sur les composantes de la nature humaine les plus rebelles aux explications – pouvoir, sexualité, violence, bienveillance et moralité –, fondée sur l’observation de nos deux plus proches cousins de la famille des grands singes, les chimpanzés et les bonobos.»

Anotações…

Há por vezes na ‘vida’ experiências reveladoras de como a linguagem (no sentido psicológico e mental do termo) nos pode ‘trair’, e até confundir num diálogo com alguém mais próximo. De facto, os limiares, ou limites, da linguagem-instrumento são tão finos, e desde logo, imperceptíveis, que intuitivamente (no sentido fenomenológico e transcendental do termo) acabamos por nos dar conta de que reduzimos a ‘coisa’ (o substractum do que nos move interiormente e inspira) a objecto, logo ao esvaziamento da sua ‘luz’ (no sentido agustiniano) e do seu poder revelador de sentido(s), fundamentais para a existência de cada um. Não existindo o diálogo (no sentido narrativo), resta um manancial de não-ditos que ficam por dizer, de silêncio(s) que ficam por quebrar e os consequentes mal-entendidos que ficam por desfazer, e/ou interpretar.

Vale sempre a pena desconstruir e reinterpretar sob nova(s) luz(es) tudo aquilo que damos por adquirido….até o amor e a amizade.