«Capote»

«Capote»: não esperava estar perante uma desconstrução de um personagem (presumivelmente Truman Capote) tão aguda e refinada, de tão trágico-cómica, irónica e sarcástica que é.
A desconstrução ultrapassa o conhecido retrato de Truman, a de figura pequena, homosexual e egocêntrica. Aliás, estas dimensões da sua existência são uma gota num conjunto de referências histórico-psicanalíticas e que molduram a personagem e a sua relação com o mundo, a cultura e a sociedade. Phillip Seymour Hoffman leva a abordagem estética daquilo que constitui uma das facetas da aesthesis humana ao limite: a fruição estética de um objecto ausente, e por isso mesmo niilista quanto a qualquer escala de valores/valoração. Capote frui-se na sensação e na emoção: quer a que tem origem em si, ou seja, na sua experiência vivida (sobretudo, a da sua infância), quer na que inventa a partir do objecto que cria no seu imaginário por «transfert», ou seja, a partir da experiência de um outro que ele não reconhece enquanto outro, mas como outro de si próprio. Isto já não é egocentrismo… É mais do que isso, ou até outra coisa. É experiência estética levada ao niilismo de si própria, e que só um ‘monstro’ intelectual poderia incarnar, mas não sem ser arrastado para o vácuo existencial (humano) entretanto criado: o do sofrimento, derradeiro apeadeiro onde Capote encontra as referências que lhe devolvem o sentimento mais fundamental, mas mais humano, da existência…o de limite/ morte. A isto não foi allheio o facto de depois de «A sangue frio» Truman não ter acabado nenhum livro seu.  (2006-02-26)

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