Leitura(s)

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Onfray, Michel, Le Souci des Plaisirs, Flammarion, 2008.

Nota da Editora:
Vingt siècles de christianisme ont fabriqué un corps déplorable et une sexualité catastrophique. A partir de la fable d’un Fils de Dieu incarné en Fils de l’Homme. un mythe nommé Jésus a servi de premier modèle à l’imitation : un corps qui ne boit pas. ne mange pas, ne rit pas. n’a pas de sexualité – autrement dit un anticorps. La névrose de Paul de Tarse. impuissant sexuel qui souhaite élargir son destin funeste à l’humanité tout entière. débouche sur la proposition d’un second modèle à imiter : celui du corps du Christ.
à savoir un cadavre. Sur le principe de cette double imitation. un anticorps angélique auquel on parvient en faisant mourir son corps au monde. les Pères de l’Eglise. dont saint Augustin. développent une théologie de l’éros chrétien : un nihilisme de la chair. Le modèle de jouissance devient le martyr qui jouit de souffrir et de mourir pour gagner son paradis. Une seconde théologie de l’éros chrétien passe par Sade et Bataille.
deux défenseurs de l’éros nocturne chrétien : identité de la souffrance et de la jouissance. mépris des femmes. haine de la chair, dégoût des corps. volupté dans la mort. L’antidote à ce nihilisme de la chair se trouve dans le Kâma-sûtra, un antidote violent à La Cité de Dieu d’Augustin. Sous le soleil de l’Inde. l’érotisme solaire suppose une spiritualité amoureuse de la vie. l’égalité entre les hommes et les femmes. les techniques du corps amoureux. la construction d’un corps complice avec la nature. la promotion de belles individualités, masculines et féminines. afin de construire un corps radieux pour une existence jubilatoire. Le Souci des plaisirs raconte l’obscurcissement chrétien de la chair, et propose une philosophie des Lumières sensuelles.

Leitura(s)..

Pastoureau, M., Noir , Histoire d’une couleur, Paris, Beau livre, Octobre 2008.

97820204908703

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Autor de outro ensaio consagrado ao azul, o historiador das cores Michel Pastoureau interessou-se pela longa história do preto, pelas mitologias das trevas na sua omnipresença contemporânea desde o nascimento da imprensa no século XV.

O(s) Mundo(s) do(s) Livro(s). Reflexões.

CLASSEN, Constance, Mundos do sentido. Explorando os sentidos na história e através das culturas, London, Routledge, 1993.

Breve história do(s) sentido(s)

Como advertiu o filósofo H.-G. Gadamer são os preconceitos que nos permitem pensar ao anteporem-se aos nossos juízos, tornando-os, assim, possíveis. Daqui que esses preconceitos se deixem, dificilmente pensar… Mas podemos tentar fazê-lo virando-nos para os preconceitos dos outros, assistir à arbitrariedade que lhes está subjacente e que sustenta os seus juízos. Ora, a História é uma excelente via para nos distanciarmos de nós mesmos e olhar, com estranheza, aquilo que, de tão familiar, se nos tinha tornado invisível (não visível).

C. Classen, Professora no Center for the Study of World Religions, da Universidade de Harvard, propôs, num seu artigo, encontrar respostas para perguntas como:

Que modos diferentes de consciência poderão surgir no caso de o olfacto e o tacto se tornarem modos fundamentais de conhecimento? Como é que se relaciona a ordem sensorial de uma cultura com a sua ordem social? Há uma ordem natural dos sentidos? Como é que se expressa, e se organiza, a experiência sensorial através da linguagem? Que alternativas poderão existir às nossas formas habituais de sentir o mundo?

Como é que se pensaram – e praticaram – os sentidos ao longo do tempo no Ocidente? Porque é que se cristalizou um número para os sentidos e porquê exactamente cinco? A ordem canónica (visão, olfacto, paladar e tacto) e a hierarquia que lhe está implícita terá sido sempre a mesma?

Segundo Classen, nem sempre houve acordo quanto ao número dos sentidos. Por exemplo, Platão, misturou o que hoje distinguimos como sentido e sentimentos. Numa enumeração das percepções, refere a visão, a audição e o olfacto, omitindo o paladar e substituindo o tacto pela sensação térmica (calor e frio); acrescenta sentimentos como o prazer, o desgosto, o desejo ou o medo.

Terá sido Aristóteles quem fundiu o que passaria a ser o actual canon dos ‘cinco sentidos’, naturalizando-os segundo a Física do momento: como na altura se defendia que eram cinco os elementos que compunham o cosmos (terra, ar, fogo, água e a quintessência ), assim também, segundo os princípio da proporção ou da semelhança, teriam de ser cinco os sentidos que nos permitiriam o contacto com esse mesmo cosmos. A visão, a audição, o paladar e o tacto seriam, então, os sentidos primários; já o olfacto exerceria a função de mediador entre os dois primeiros e os dois últimos. Foram quer a autoridade de Aristóteles, quer a da própria influência da Numerologia, que fixaram, até hoje, os cinco sentidos canónicos. Mas a ordem hierárquica passou por alterações ao longo da história. Por exemplo, Fílon (por razões numerológicas e influências hebraicas) defendeu sete, acrescentando o ‘sentido da fala’ e o ‘sentido sexual’. Curioso não é?

Tanto na Grécia Clássica, como na Idade Média, os sentidos eram, quer receptores passivos de inacção, quer meios activos de ligação com o ‘exterior’. Tal como do olho saem raios que tocam o observado, misturam-se com ele e incorporam-no no sujeito que vê, assim também saem da boca sons que atingem a coisa e, apalavrando-a, permitem ao sujeito apropriar-se dela. Por outro lado, a fala era tida como uma faculdade perfeitamente natural. Frederico II, Imperador do Sacro Império Romano-Germânico, mandou realizar aquilo que terá sido a primeira experiência a testar as teses chomskianas: isolar um grupo de crianças e subtrair-lhes qualquer linguagem para averiguar em que línguas se expressariam para falarem espontaneamente: se em latim, em grego, hebraico ou língua vernácula. Durante a Idade Média, época por excelência do domínio da oralidade, ‘o sentido da língua’ foi considerado, praticamente, como um sexto sentido.

Noutras épocas, recupera-se a dinâmica dos sentidos correlacionando-se os cinco sentidos corporais com outros tantos espirituais, e que ‘processariam a inacção’ trazida pelos primeiros. Estes sentidos internos – a memória, o instinto, a imaginação, a fantasia e o sentido comum (sensus communis), seriam, para Orígenes, quem permitiria apreciar, por exemplo, a «doçura da palavra de Deus». Só com a Ilustração (séc. XVII) é que esses dez sentidos seriam desagregados, caindo uns para o lado das ‘faculdades sensoriais’ e os outros para o das ‘faculdades mentais’. Classen dedica o Capítulo ao «Odor da Rosa: Simbolismo Floral e a Decadência Olfactiva do Ocidente», intitulando, de ressonâncias spenglerianas à passagem para o primado dos odores, capazes de captar a ‘essência’, causadoras de doenças e propiciadores da saúde) e do desprezo do carácter meramente superficial da visão para o predomínio desta, traduzindo o poder de penetrar os objectos (mediante a sua análise ou decomposição) de forma a captar a sua essência.

Já na Europa medieval a ordenação dos sentidos parece ter sido tema de debate assaz popular. A visão e a audição disputavam a primazia, talvez em consonância com a prioridade que se desse ao livro ou à fala, como modos de comunicação e de conhecimento, não só entre as pessoas como entre estas e a divindade. Assim, Tomás de Aquino privilegiou a audição (é através dela que se percebe a palavra de Deus). Alain de Lille, descreve em 1183, os sentidos como cinco cavalos puxando uma carruagem que a Prudência conduz para os céus; pela sua rapidez, a visão colocou-se em primeiro lugar. Mas a carruagem é incapaz de atingir a sua meta, pelo que a Prudência, aconselhada pela teologia, solta a Audição e no seu dorso consegue chegar ao céu.

Um certo incómodo com a hierarquização, fixa e definitiva da ordem sensorial, foi sendo alimentada ao longo da história por alegorias até à Ilustração. No século XVII, Tomkis narra os desejos da fala, Língua, em ocupar um lugar entre os sentidos. O Sensus Communis ordena que a pretensão da Língua seja decidada no tribunal da justiça. Ali, cada sentido defende o seu valor específico e o Sentido Comum acaba por ditar que a Língua deve ser descartada, já que o sentidos não devem ultrapassar o número de cinco, analogamente aos quatro elementos e quintessência celestial. Contudo, abre-se uma excepção: as mulheres podem considerar a Língua como «o último e feminino sentido».

Com a Modernidade, os sentidos submergem-se plenamente na natureza, apesar de essa natureza já ser outra…Sendo pouco confiáveis, à maneira cartesiana, não passando de meros mecanismos físicos e passivos, os sentidos são considerados, numa via lockeana, a única fonte fiável de conhecimento. Tudo o que fosse actividade passaria para o lado mental (intelectual). Curiosidade: a autoridade do número cinco deixaria, definitivamente, de ser questionada.

Classen constata, nos nossos dias, aquilo que se pode interpretar como uma recuperação da antiga polémica sobre o número dos sentidos e a sua hierarquia. Assim, a unidade do tacto pulveriza-se numa multitude de sentidos especializados, como a cinestesia, a percepção da temperatura, da dor… Constata-se a existência, no ser humano, de um ‘sentido magnético’ que nos permite orientarmo-nos no campo magnético terrestre. Recupera-se, também, a antiga condição activa dos sentidos, quer vinculando-os às emoções (por exemplo, aos diferentes efeitos anímicos produzidos pelas diferentes cores), quer investigando a sua participação activa na construção do objecto percebido. Classen surpreende-se com o facto de que apesar de assistirmos a uma ênfase generalizada do carácter social e culturalmente construído de quase tudo (desde a alimentação ao buraco no ozono, passando pelo sexo e teorias científicas) os sentidos fiquem à margem de toda esta tónica, ficando o seu estudo confinado ao âmbito estritamente naturalista. Cita, não obstante, algumas excepções: a influência que McLuhan atribuiu ao papel desempenhado pelos sentidos nas transformações dos meios de comunicação, nas transformações do pensar e da organização social. Tem-se assistido ao auge da visão. A tese de G. Simmel – para quem a redução drástica das relações pessoas nas grandes cidades transforma um mundo, onde predomina a cortesia e a fala, num outro onde simplesmente se olha (‘serviço visual obrigatório’). A visão exige o distanciamento, estando na base da construção do ideal de objectividade que torna possível a ciência (Evelyn F. Keller), ideal tipicamente masculino (como é sabido, o homem peca pelo olho, a mulher pela orelha). Este quase monopólio da visão, no âmbito dos actuais estudos sociais que se ocupam dos sentidos, pode ser interpretado como mais um sintoma de desatenção e decadência dos restantes sentidos na nossa cultura. Criticar este ‘olhocentrismo’ abre a nossa percepção de outras percepções e permite-nos ampliar a nossa ‘visão do mundo’ àquilo que possam ser ‘audições do mundo’ ou ‘odores do mundo’. 

Novidades…

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Ferraris, Mario, Où es-tu? Ontologie du téléphone portable, Essai (broché) 2006.

 

‘Estás onde?’: com o aparecimento do telefone portátil, esta pergunta tornou-se um reflexo, e a mobilidade uma evidência. Verdadeiro apêndice deste nosso ser, este instrumento transformou radicalmente a nossa vida diária, alterando a nossa maneira de ver, de compreender e aprender. Donde a noção de ontologia, que preside a esta análise ao mesmo tempo profunda e divertida do portátil e do seu significado.

Novidade(s)…

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Kristeva, Julia, Au risque de la pensée , Essai (poche), 2006.

Semióloga, psicanalista, romancista, especialista dos estados-limites da língua, Julia Kristeva deslumbra-nos com o seu génio proteiforme. Consente em entregar e analisar aqui os meandros do seu percurso, da cultura comunista búlgara à aventura de Tal qual, da sua chegada a Paris nos anos 1960, e do seu encontro com Lacan à sua própria análise, do seu interesse apaixonado pelas novas doenças da alma às últimas perturbações – ao mesmo tempo éticas e políticas – que baralham as referências ancestrais das nossas sociedades. Testemunho atento do nosso tempo, a autora não cessa, num olhar perspicaz e alegre, de interrogar a figura do Estrangeiro, do Outro. Em nenhum caso nostálgico de um discurso religioso passadista, Kristeva propõe outra moral, ao mesmo tempo feliz mas sem ilusão, que convida cada um a empreender o seu próprio percurso e a descobrir a sua singularidade.

Leitura(s)…

Claude Halmos, Pourquoi l’amour ne suffit pas. Plaidoyer pour l’éducation, Nil Eds, 2006.

Nota da Editora
« L’enfant n’est pas “naturellement ” apte à vivre avec ses semblables et il ne découvre pas tout seul le mode d’emploi de la vie humaine. Il se construit et a pour ce faire besoin des adultes; l’éducation est le support essentiel de sa construction. Aimer un enfant ne peut donc, comme on le croit trop souvent aujourd’hui, se limiter à éprouver pour lui de l’affection. Claude Halmos, à la lumière de son expérience de psychanalyste, démontre que la vision d’un amour parental réduit aux sentiments a des conséquences graves pour les enfants, pour leurs parents, mais aussi pour toute la société. Elle pose, dans le langage clair qu’on lui connaît, les bases d’une véritable réflexion sur l’amour parental. Et donne ainsi à tous les parents les moyens de comprendre ce qu’aimer un enfant veut dire.»


Frans de Waal, Le singe en nous , Fayard, 2006.

Nota da Editora
« Frans de Waal nous livre une étude passionnante sur les composantes de la nature humaine les plus rebelles aux explications – pouvoir, sexualité, violence, bienveillance et moralité –, fondée sur l’observation de nos deux plus proches cousins de la famille des grands singes, les chimpanzés et les bonobos.»